Autor: Maria Valéria Rezende
Editora: EDITORA OBJETIVA
Ano de Edição: 2005
Olá
gente! Mais uma resenha que estou postando aqui para vocês. Espero
que gostem. ♥️
Maria Valéria Rezende, escritora
brasileira, estreou na ficção em 2001, com o livro de contos Vasto mundo.
Depois, escreveu livros infanto-juvenis e o elogiado romance O Voo da guará
vermelha no qual ficcionalizou muito do que viveu enquanto ensinava jovens e
adultos a ler e escrever. ( UOL
entretimento/ Agência Riff)
Na obra de Maria Valéria Rezende, O vôo da guará
vermelha, relata à
história de Irene, uma prostituta que tem AIDS, que tenta sustentar seu filho.
Porém, tudo muda após conhecer Rosálio da Conceição, um pedreiro que trabalha
na região, que assim como Irene também não teve uma vida muito fácil, era órfão
de mãe que nunca chegou a conhecer seu pai e foi criado pela avó num pequeno
povoado.
Rosálio
sempre anda com uma caixa trancada e é nela que guarda seus tesouros preciosos,
que ganhou de Pajé, seus livros. Onde alguns ele sabe as histórias, pois Pajé
havia lhe contado, e quando ele morreu, Rosálio ficou com seus livros com a esperança de um dia poder
ler todos. Pajé despertou um sonho em Rosálio, aprender a ler e escrever, e
Rosálio estava disposto a sair pelo mundo em busca disso.
Em O vôo da guará
vermelha, Rosálio conta suas histórias de vida para Irene, é tanto que Irene
sempre pensa nele como O contador de histórias. Além das histórias de vida
também conta as histórias literárias, que escutou Pajé lhe contar, e que as
guarda na mente com muita preciosidade, uma das histórias são: Dom Quixote e
Princesa Sherazade. Apesar de tudo, Rosálio
não realizou seu sonho de ler e escrever e é Irene que vai ensinando com paciência em troca
que ele lhe conte histórias.
Rezende foca muito nas cores é tanto
que a cada capítulo ela coloca o título relacionado a cores. No primeiro
capítulo, por exemplo, o titulo é “cinzento encarnado” que vem retratando a
cinzenta tristeza de Rosálio e sua fome de encarnados.
“Rosálios,
chegados pelas mesmas veredas, macambúzios, revestidos de cinzenta tristeza,
[...]” ( pág. 12)
“ [...] e em Rosálio medraram a fome de vozes, a fome
de encarnados.” ( pág.12)
Outra coisa que podemos notar é como
ela retrata bem a doença de Irene
“Irene, cansada, cansada, como custa
esforço não pensar em nada.” (pág. 12)
Sua magreza, fraqueza e tontura, é
bem retratado no livro, podemos enxergá-la como alguém que vive para sustentar
o filho, que tenta sobreviver à doença e ao trabalho. Uma mulher infeliz que a
única coisa com que se preocupa é com seu filho e com a “velha”.
“[...]
não me importo de tudo se acabar agorinha, que esta minha vida só tem uma
porta, que dá para o cemitério, mas a senhora vai tomar conta do menino e da
velha?”
Podemos
observar que os diálogos da narração não tem travessões, mas não é difícil de
identificar o que é dialogo e o que é narrado, ao contrário, a autora deixa
isso muito bem colocado, fiquei admirada como ela faz com que os leitores não
se confunda nesse termo.
“Irene arrasta a amiga e a faz sentar-se na cama, pega água da moringa, bota
num copo com açúcar e obriga a outra a beber, Anginha, filha, se acalme, deixe
de pensar besteira, não se meta com o além nem se meta com feitiço que isso não
serve para nada, só para lhe tomar dinheiro, que se acalme, Anginha, sossegue,
pense com a cabeça fria, que esse homem não prestava, te tratava como escrava,
tomava tudo o que é teu, dê graças à Mãe do Céu que te livrou dessa peste.” (pág 109)
A narrativa é tão instigante que somos capazes de ler o livro todo de uma vez,
sem sequer perceber. A história não é cansativa, por isso no desenrolar dos fatos,
o livro se torna mais interesse. Além disso, os personagens principais são
carismáticos, o que contribuem muito para a obra, pois fazem com que a leitura
seja mais envolvente. Rezende faz com que o livro seja bem objetivo, pois deixa
bem claro o que foi posto.
Já que é um vocabulário regionalista,
de fácil entendimento, independe dos conhecimentos prévios dos leitores,
fazendo com que qualquer pessoa que leia, entenda a obra. E o que o título tem
a ver com livro?
Eu ainda não contei como eles se
conhecem, como já citei acima Irene é uma prostituta, então quando está no seu
local de trabalho, fica observando e quando vê Rosálio pensa logo que será um
cliente seu, então ela o chama, e ele vai, e depois de fazer o seu trabalho,
depois que tudo estava pronto, Irene pede dinheiro, mas Rosálio não tem, Irene
fica desesperada, o chama de ladrão, explorador, sendo que ele não queria nada
daquilo, e não tinha dinheiro para lhe dar, e foi aí que ele sentiu muita pena
dela, sentiu muito dó e a primeira coisa que lembrou foi da guará vermelha, a
ave que ele a tinha resgatado de um espinheiro, e ele lhe abraça e lhe conta a
história:
“Uma vez eu vinha só, caminhando por
um ermo, somente eu e Deus, naquele lugar tão longe, um descampado sem fim, de
capoeira seca e rala, vinha buscando lugar que fosse de gente viva onde
houvesse descanso e então, naquele silêncio, ouvi um gemido triste de cortar o
coração e vi uma ave guará vermelha enredada num espinheiro, se debatendo,
coitada...” (pág.19)
Na obra de Rezende podemos refletir
sobre as inúmeras mulheres no mundo que se prostituem, e por consequência
acabam pegando doenças sexualmente transmissíveis, como no caso de Irene, que
pegou AIDS. Podemos pensar que assim como Rosálio, diversas pessoas no Brasil,
são analfabetas, não sabem ler nem escrever porque não tiveram a oportunidade
de alguém lhes ensinar, por lhe mostrar as letras e seus significados. Apesar
de ser uma obra ficcional podemos ver que a autora transfigura o real. Por meio
de uma escrita simples, porém profunda, a autora tenta nos passar algo sobre a
realidade ao nosso redor a qual nunca paramos pra pensar e é por meio dessa
obra que passamos a refletir melhor.
Um romance triste, de uma mulher
prostituta e um homem que chega pra dá cores a sua vida preta e branca, a vida
a qual ela achava que não havia mais jeito. Uma história de um homem cheio de
sonhos e esperança e uma mulher que apesar de não lhe puder dar nada, deu tudo,
por realizar seus sonhos, o sonho de aprender a ler e escrever. O sonho que ele
tanto buscou, perseverou, e encontrou, por ter conhecido uma mulher de vestido
encarnado, a mulher de quem ele tanto lembra: o vôo da guará vermelha.
Para
aqueles que apreciam uma leitura ficcional que relata uma história de forma
real, em O vôo da guará vermelha encontrará nas falas de Maria Valéria Rezende
uma história tocante sobre um casal que tenta vencer as dificuldades da vida em
busca de seus sonhos.
Referências
REZENDE, Maria Valéria. O voo da guará vermelha/ Maria Valéria Rezende. – Rio
de Janeiro: Objetiva, 2005. 182 p. ISBN 85-7302-697-9. 1. Literatura brasileira
– Romance. I. Título CDD B869.5
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